sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Nenhum Olhar

Pela primeira vez, gritaremos o nome um do outro. Já reparaste?, nunca precisámos de nos chamar. Não sei como é o meu nome na tua voz. Na tua voz, irmão, irmão. Não sei como é o teu nome na minha voz.
(...)
Hoje a solidão. Desapareceremos um do outro, deixaremos de ser nós para sermos só tu e só eu. Mas não esqueceremos. E lembrarmo-nos será o maior sofrimento, recordarmos o que fomos onde estivermos e não podermos ser mais nada nesse dia. (...) Hoje deixar-te-ei, sabendo que sempre tive amor por sempre teres estado comigo. E não tenho mais vergonha dessa palavra que nunca dissemor: amor: essa palavra: amor: que nunca chegámos a dizer e que hoje preciso de dizer. Sincero, verdadeiro, irmão. Irei sentir a tua falta. Sem o poder explicar a ninguém por não existir ninguém ao meu lado, irei sentir a tua falta. E, por mais negra que seja a planície por onde vaguearei a eternidade, será sempre a recordação dolorosa de um sol- pôr, será sempre a mágoa de só te poder lembrar.
(...) e dói-me seres frio, dói-me a tua pele ser mais macia, dói-me as pessoas passarem a olhar-te e seres morto: o teu olhar nunca mais; o teu sorriso nunca mais; tu a ouvires-me nunca mais; tu a existires e a presenciares o que fui e fomos, nunca mais. Irmão. (...) Todo eu me cansei. Todo o meu cansaço colidiu com o meu cansaço, e todo eu sou isso. A noite onde morreste anoiteceu no que sou.
José Luís Peixoto

quinta-feira, 24 de julho de 2008

William Faulkner


Desejo não que sejas capaz de te lembrar do tempo, mas sim que te seja possível esquecê-lo de vez em quando durante um momento e que não desperdices o teu fôlego tentando conquistá-lo.


prefácio do livro Ao Anoitecer, de Susan Minot
(um dos próximos a comprar, sem dúvida)


segunda-feira, 23 de junho de 2008

Eu não sei Dizer


O silêncio deixa-me ileso, e que importância tem?
Se assim tu vês em mim alguém melhor que alguém.
Sei que minto pois o que sinto nao é diferente de ti.
Não cedo. Este segredo é frágil e é só meu.

Eu não sei tanto sobre tanta coisa
Que às vezes tenho medo
De dizer aquelas coisas que fazem chorar.

Quem te disse coisas tristes não era igual a mim.
Sim, eu sei que choro, mas eu posso querer diferente para ti.

Eu não sei tanto sobre tanta coisa
Que às vezes tenho medo
De dizer aquelas coisas que fazem chorar.

E não me perguntes nada, que eu não sei dizer.


Silence Four

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Edvard e a Dor



Um túnel onde Edvard entra. Do outro lado sai como que a saber cantar. Mas não. Ele não canta: simplesmente grita de uma forma melódica. Como domina musicalmente a dor julgam que Edvard não está a sofrer, mas está.

De que se queixa esse homem que parece cantar? Não sabemos.

O que sabemos é que, produzidas artificialmente, as palavras acalmam aquilo que é claro não pertencer à cultura; falamos da dor. A dor não é cultural; a dor não é uma coisa produzida pelo Homem, já existia antes e existe sem ele. Mas com ele, claro, com o Homem, foram introduzidas múltiplas variantes. O Homem produz dor como produz instrumentos técnicos: em quantidade e adaptada às circunstâncias. Repare-se que há quase tantos instrumentos para consertar uma máquina avariada como para provocar dor. Os instrumentos de tortura são, a cada dia, aperfeiçoados.

Mas Edvard não quer saber do Homem em geral. Está preocupado, sim, consigo próprio, como todos estão, desde o nascimento.

No fundo, aqueles que nos recebem no mundo, sabia Edvard, apenas nos preparam para o egoísmo, fortalecendo-o.

Aprende com o corpo e com as ideias a defender-te e estarás pronto para entrar no Reino dos Homens.

Pois era assim que Edvard pensava.

E a sua grande qualidade era esta: gritava a sua dor de tal forma que parecia cantar.



Gonçalo M. Tavares

domingo, 8 de junho de 2008

A confissão de Lúcio


Assim sucede com efeito. Referimos certos acontecimentos da nossa vida e outros mais fundamentais - e muitas vezes, em torno de um beijo, circula todo um mundo, toda uma humanidade. (...)

(...) Depois, não me saciam apenas as coisas que possuo - aborrecem-me também as que não tenho, porque, na vida como nos sonhos, são sempre as mesmas. (...) Por exemplo: uma coisa onde nunca me vi, foi na vida. (...)

(...) « Porque afinal essa sua vida - "a vida de todos os dias" - é a única que eu amo. Simplesmente não a posso existir... E orgulho-me tanto de não a poder viver .... orgulho-me tanto de não ser feliz ... Cá estamos : a maldita literatura...


Mário de Sá - Carneiro




Paixão


"(...)Chama paixão uma acção que destrói alguma personagem, ou que causa violentas dores, como são as mortes evidentes e certas, os tormentos, as feridas, e todas as outras cousas semelhantes. (...)"

in Dissertação primeira sobre o carácter da Tragédia, por Correia Garção


sábado, 10 de maio de 2008

Com Certeza


Talvez um dia eu seja quem sou sem ser.
Talvez um dia eu te conheça por conhecer. E tu a mim.
Talvez eu descubra um pôr- do- sol diferente do real.
(...) Talvez as feridas que eu fiz nos joelhos quando era mais pequena, só um pouco mais, voltem a sangrar.
(...) Talvez alguém me diga o que falar quer dizer e eu não queira nem ouvir dizer,
(...) Talvez as coisas sejam o que são e não aquilo que gostaríamos que fossem. Temendo. Negando. Recusando.
(...) Talvez ter um sinal do lado direito do peito seja o mesmo que pedir uma prova de amor diferente.

(...)


Ana Mendes (com millhares de expressões de boquiaberta), in Adeus, até Breve