sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ainda que mal


Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Friedrich

No meu pior pesadelo, a alma é só uma superfície plana onde tudo
está parado, pelo que ninguém
pode dizer o que nela vai.
Miguel Esteves Cardoso, in "O amor é fodido"

domingo, 13 de janeiro de 2008

New Soul

I'm a new soul
I can do this strange world hoping I could learn a bit about how to give and take.
But since I came here felt the joy and the fear finding myself making every possible mistake
.
I'm a young soul
in this very strange world hoping I could learn a bit about what is true and faith.
But why don't please trying to comunnicate finding just in love is not always easy to make.
.
This is a happy end cause' you don't understand everything you have done wise everything so wrong
This is a happy end come and give me your hand I'll take your far away.

Yael Naim

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Parabola

We barely remember who or what came before this precious moment,
We are choosing to be here right now.
hold on, stay inside...
This holy reality, this holy experience.
choosing to be here in...
This body. this body holding me.
be my reminder here that I am not alone in
This body, this body holding me,
feeling eternal
all this pain is an illusion.
Alive
This holy reality, in this holy experience.
choosing to be here in...
This body. this body holding me.
be my reminder here that I am not alone in
This body, this body holding me,
feeling eternal
all this pain is an illusion...
Of what it means to be alive
Swirling round with this familiar parable.
Spinning, weaving round each new experience.
Recognize this as a holy gift and celebrate this
Chance to be alive and breathing
Chance to be alive and breathing.
This body holding me reminds me of my own mortality.
Embrace this moment.
remember.
we are eternal.
All this pain is an illusion.
Tool

Adeus



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade

domingo, 18 de novembro de 2007

La Cassaria

Corisca- Eu bem sei o que Carídoro me prometeu tantas vezes, e tu sabes o que Erófilo te prometeu a ti. E quanto nos amam, igualmente o sabemos.
Eulália- Bem sei que o prometeram; mas não sei se querem manter as promessas; nem sei se nos amam, nem tu o sabes, pois não lhes vês a alma. Só sabemos o seguinte: que nos deveriam amar.

Ludovico Ariosto

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A menina que nunca chorava

Para a Torey com muito Amor

Todos os outros vieram

Tentaram fazer-me rir

Brincaram comigo

Algumas vezes para rir e outras a sério

E depois partiram

Abandonando-me nas ruínas das brincadeiras

E eu não sabia quais eram a sério.

Quais eram para rir e

Vi-me sozinha com os ecos dos risos

Que não eram os meus.

E depois tu chegaste

Com os teus modos estranhos

Nem sempre humanos

E fizeste-me chorar

E não pareceste importar-te que chorasse.

Disseste que as brincadeiras tinham acabado

E esperaste

Até que as minhas lágrimas se transformassem

Em alegria.

Sheila, 6 anos
(Torey Hayden)