sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Catedral



O deserto que atravessei
Ninguém me viu passar
Estranha e só
Nem pude ver
Que o céu é maior
Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar


É deserto onde eu te encontrei
Você me viu passar
Correndo só
Nem pude ver
Que o tempo é maior
Olhei pra mim
Me vi assim
Tão perto de chegar
Onde você não está

No silêncio uma catedral
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal
Mas vai existir
Eu sei vai ter que existir
Vai resistir nosso lugar

Solidão
Quem pode evitar
Te encontro enfim
Meu coração
É secular
Sonha e desagua dentro de mim
Amanhã devagar
Me diz como voltar

Se eu disser
Que foi por amor
Não vou mentir pra mim
Se eu disser
Deixa pra depois
Não foi sempre assim
Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar.


Zelia Duncan

Alice



Não conseguia escrever. Aquilo acontecia de vez em quando. Mas nunca durante tanto tempo. Sentia-se perdida, com medo. Sentia falta das suas histórias, de criar coisas que não existiam antes, de escrever durante a noite e ouvir os pássaros ao amanhecer, e depois dormir um pouco e levantar-se para fazer café.

(…)

Mas agora não conseguia escrever. E os dias e as noites eram muito longos, quase intermináveis.


Ana Teresa Pereira


quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Drunken Heart



O que eu escrevia cabia em uma página

E os dias duravam frases

O que é sensível já não cabe em letra

Eu sinto e só

Um egoísmo de dar inveja


E eu não quero contar nada pra ninguém.


domingo, 7 de setembro de 2008

Mais Pedro Paixão



Nunca se sabe o que é para sempre, sobretudo nas coisas do amor. E era uma coisa do amor, isto tudo. São tão estranhas as coisas do amor que não se compreendem por inteiro. Tem de se estar sempre a fazer suposições. Nunca se sabe como e até que ponto a até quando. Esta obsessão chega para impedir a vida, o amor pode impedir o amor, amaldiçoá-lo como um espectro.


Nos teus braços morreríamos

Aquilo a que assisto é real e não é possível.


PortoKioto

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Nenhum Olhar II


Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.


José Luís Peixoto

Nenhum Olhar

Pela primeira vez, gritaremos o nome um do outro. Já reparaste?, nunca precisámos de nos chamar. Não sei como é o meu nome na tua voz. Na tua voz, irmão, irmão. Não sei como é o teu nome na minha voz.
(...)
Hoje a solidão. Desapareceremos um do outro, deixaremos de ser nós para sermos só tu e só eu. Mas não esqueceremos. E lembrarmo-nos será o maior sofrimento, recordarmos o que fomos onde estivermos e não podermos ser mais nada nesse dia. (...) Hoje deixar-te-ei, sabendo que sempre tive amor por sempre teres estado comigo. E não tenho mais vergonha dessa palavra que nunca dissemor: amor: essa palavra: amor: que nunca chegámos a dizer e que hoje preciso de dizer. Sincero, verdadeiro, irmão. Irei sentir a tua falta. Sem o poder explicar a ninguém por não existir ninguém ao meu lado, irei sentir a tua falta. E, por mais negra que seja a planície por onde vaguearei a eternidade, será sempre a recordação dolorosa de um sol- pôr, será sempre a mágoa de só te poder lembrar.
(...) e dói-me seres frio, dói-me a tua pele ser mais macia, dói-me as pessoas passarem a olhar-te e seres morto: o teu olhar nunca mais; o teu sorriso nunca mais; tu a ouvires-me nunca mais; tu a existires e a presenciares o que fui e fomos, nunca mais. Irmão. (...) Todo eu me cansei. Todo o meu cansaço colidiu com o meu cansaço, e todo eu sou isso. A noite onde morreste anoiteceu no que sou.
José Luís Peixoto

quinta-feira, 24 de julho de 2008

William Faulkner


Desejo não que sejas capaz de te lembrar do tempo, mas sim que te seja possível esquecê-lo de vez em quando durante um momento e que não desperdices o teu fôlego tentando conquistá-lo.


prefácio do livro Ao Anoitecer, de Susan Minot
(um dos próximos a comprar, sem dúvida)